Home Silvestre Raposo -  Desenho, Pintura, Escultura, Fotografia, Poesia, Contos
Os comboios do Sul

Pára! …pára! está ali uma mina; contava-me o Francisco, sobre um qualquer episódio, de um filme de guerra, quando era quase a 1 hora da madrugada e chegávamos á estação de Santa Apolónia, vindos do Sul, no barco que liga o Barreiro a Lisboa. Aquele percurso a pé, desde o Terreiro do Paço a Santa Apolónia, ajudava a acordar um pouco da sonolência da travessia do Tejo. Pára! …pára! está ali uma mina; contava-me o Francisco, sobre um qualquer episódio, de um filme de guerra, quando era quase a 1 hora da madrugada e chegávamos á estação de Santa Apolónia, vindos do Sul, no barco que liga o Barreiro a Lisboa. Aquele percurso a pé, desde o Terreiro do Paço a Santa Apolónia, ajudava a acordar um pouco da sonolência da travessia do Tejo.
Olhei um cartaz com um comboio do Norte e, qual efeito espelho, tento reproduzir imagens dos velhos comboios do Sul, a partir daqueles que ainda existem a Norte.

Choro o meu Sul, que não é o Sul deste canto de terra, mas sim o Sul imenso deste Planeta, que concentra a Norte a riqueza e a Sul as lágrimas, que já não caem pela face, por falta de força das crianças que choram, apenas rolam, lentamente, pelos rostos magros, por falta dos alimentos, que ao Norte sobram.

Tento reproduzir a imagem de alegria, de quem esperava os seus familiares nas chegadas dos comboios e o que me ocorre é a partida e as lágrimas da despedida.

Os comboios a Sul que a memória me dá, não são os comboios de ferro sobre carris, são filas de camiões a que também usam chamar de comboios, mas que não são comboios de verdade, ali a verdade é outra, esses “comboios” são umas vezes humanitários e transportam alimentos e só vêm alguma alegria, quando os repartem entre rostos de olhares exangues, por vezes já sem forças para sorrir e, outras vezes, repartem bombas e mais bombas, matam sonhos e seres e mais seres, sem se importarem, porque importar-se, incomodar-se, ter dor, mágoa, tristeza, não é o seu objectivo.... COMPRAR

Silvestre Raposo - © Copyrights